Por Dionatan Zibetti

Manipular v. (…) 3 influenciar (indivíduo, coletividade), conseguindo que se comporte de uma dada maneira, para servir a interesses outros que não os seus próprios 4 provocar alteração em; tornar falso; adulterar, falsear (…) Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, pág. 1838.

Alguns ditados oriundos de uma suposta sabedoria popular expressam grandes besteiras. Por que digo isso? Provavelmente, você já deve ter escutado – espero que não tenha falado… – que o Dicionário é o “Pai dos Burros”. Não, não mesmo: o dicionário é o pai das pessoas inteligentes e sensatas. Por que digo isso? Porque ao conhecermos o significado da palavra “manipular”, destacado como epígrafe a este texto, podemos compreender uma série de fatos que ocorrem no meio cristão.

Ao lermos o texto bíblico, percebemos que uma das armas preferidas do capeta é a manipulação, o que se nota de Gênesis ao Apocalipse. Não quero me alongar muito nos exemplos; cito, então, apenas alguns: a conversa da serpente com Eva em Gênesis (tudo sugerido); a conversa de Satanás com Jesus Cristo nos evangelhos (um jogo de descontextualizações do texto bíblico); a atuação de Lúcifer nos últimos dias (homens como títeres conduzidos pelas patas do maligno). A Bíblia também nos mostra a ação de ex-mestres e falsos mestres, ex-homens e ex-mulheres de Deus que tentaram manipular as pessoas e/ou as verdades divinas, o que sempre soou a Deus como abominável feitiçaria (uma expressão quase pleonástica).

Infelizmente, meus caros, a parceria diabo – ser humano na manipulação de pessoas se mostra muito presente nos dias de hoje. Os auditórios cristãos se mostram muito disponíveis à manipulação, e poucos se dão conta disso. Por quê? Por vários motivos, entre os quais, dois muito contundentes, que passo a explicá-los.

Credulidade excessiva: a crendice que se vende como fé

De modo geral, as pessoas que conhecem o poder transformador do evangelho chegam às igrejas com muita alegria, pois se sentem libertas de uma infinidade de problemas. Quase que inconscientemente, vêem a instituição eclesiástica como local perfeito, os irmãos, como modelos de conduta e de santidade e os líderes, como autoridade suprema. Num primeiro momento, eventuais problemas, incoerências ou esquisitices são irrelevantes, pois tudo parece compensar, em virtude da nova vida em Cristo. Assim, o habitat cristão se mostra propício apenas a coisas sublimes e avesso às imundices deste mundo.

Entretanto, com o passar do tempo, os olhos começam a se abrir e, então, começam-se a perceber os problemas da igreja e tudo que a envolve. Surge o aperto no coração, surge a indignação. O que fazer? Procurar o pastor, o líder de célula ou o membro-modelo para conversar a respeito. Até aí, tudo bem. Mas o problema começa, de fato, neste ponto: como essas inquietações serão trabalhadas pela liderança da comunidade?

O caminho correto e bíblico é enfrentar os problemas, reconhecê-los e buscar resolvê-los, mesmo porque nem sempre se trata de graves problemas. Infelizmente, porém, os encaminhamentos adotados acabam sendo outros. Eis alguns: a) O líder dá uma “carteirada” no neófito, dizendo-lhe coisas do gênero “ai daquele que se levanta contra o ungido do Senhor”, “quem é você pra falar de um ministério tão ungido e de tanto sucesso?”; b) “Se não quiser mais participar, paciência, pois Deus levantará outros para o seu lugar”; c) Tenta-se negar o que é inegável, usando as mais estapafúrdias explicações, muitas vezes, fazendo uso da bíblia de uma forma totalmente equivocada (coitado do texto bíblico…); d) Utiliza-se da politicagem mais calhorda possível, ao tentar negociar-se o que é inegociável e ao relativizar-se tudo, inclusive o pecado.

Assim, muitos acabam se afastando do meio cristão. Uns, partem para outras igrejas – representam parte do grande rebanho de “beduínos da fé”, rumando de igreja em igreja. Outros, infelizmente, afastam-se do meio cristão e, pior, do Deus tão poderoso, de tão desiludidos que ficam. E as nossas estatísticas evangélicas não conseguem mensurar este número de ex-cristãos desiludidos. E outros acabam permanecendo dentro da “visão” da Igreja, mais por crendice do que por fé ou convicções. Têm suas vidas ditadas por esses déspotas que se dizem cristãos, manipuladores-feiticeiros que merecem o fogo do inferno. Não conseguem dar um passo sequer sem ouvir o que o guru (líder de celular, pastor, apóstolo ou outro nome qualquer) tem a lhes dizer.

Ah, mas tinha começado tão bem…

Conheci muitas histórias da fundação de ministérios e igrejas. A grande maioria teve um início absolutamente sensacional e genuinamente cristão. Entretanto, muitos sucumbiram ao longo do tempo. A pureza se foi com o passar do ano e com as concessões ao maligno. Sei de tantas histórias de fracasso e acredito que você, leitor, também conheça as suas. Não vou relatá-las. Relatarei a engrenagem da deturpação, com algumas cenas apenas.

Cena 1: a igreja começa a crescer, surge o desafio de um novo templo. Que gostoso participar de um processo de expansão, quando este é guiado por Deus. Agora, quando são apenas as mãos humanas que o tocam, que tristeza. A igreja se mobiliza para a compra do terreno, depois para a construção do templo e, ao final, Deus virou apenas um elemento dispensável. O templo se tornou mais importante do que o próprio Deus. Criação abafou o criador. O púlpito vira local de manipulação despudorada, com apelos tão diretos e tão repetitivos que simplesmente se incorpora o rótulo “esta igreja só fala de dinheiro”.

Cena 2: a igreja consegue comprar o terreno e construir o templo, num processo absolutamente limpo diante de Deus. Glória Deus, aleluia… Entretanto, os líderes gostam tanto da vocação expansionista que, pronto, a igreja parte para novos projetos. Nunca parar, sempre crescer, não se acomodar. Pronto, o dinheiro passa a ser a mola propulsora de tudo. O ministério se torna mais importante do que o Deus criador. As dívidas sempre se tornam em “alvos de fé”, mas no fundo ilustram a irresponsabilidade daqueles que passam a comprar primeiro e pagar depois. E novamente os líderes se colocam como feiticeiros-manipuladores, extorquindo o povo de Deus falsamente em Seu nome. Os apelos financeiros se tornam constantes e se utiliza de todos os argumentos possíveis: espirituais (“É uma vergonha para o nome de Deus não conseguirmos saldar esta parcela!”), emocionais (depoimentos chorosos e impactantes são requisitados) e racionais (planilhas e estudos mirabolantes para ilustrar o projeto expansionista).

Cena 3: o pastor que sempre prega usando sua experiência pessoal. Uma bênção, quando se vêem os princípios bíblicos efetivamente vivenciados na vida do líder. Agora, como facilmente este quadro se transforma em objeto de obtenção de vantagens imorais. Exemplos? 1. Pastor que relata dificuldades financeiras em púlpito está, no fundo, pedindo oferta para si – esta é a verdade em quase todos os casos, meus caros. 2. Pastor que se diz abençoado e que ganha muitos presentes está, no fundo, pedindo mais presentes para si. 3. Pastor que pede ofertas prometendo bênçãos divinas está, muitas vezes (repito, muitas vezes), praticando escambo espiritual. Lógico que Deus abençoa aqueles que são generosos e fiéis; todavia, condicionar bênçãos a ofertas materiais é feitiçaria pura, quase como oferecer um frango em macumba. Ofertar a Deus é fazê-lo incondicionalmente, apenas por uma questão de obediência. Bem, isso já seria assunto para outro artigo. Os exemplos dados por mim apresentam exceções, lógico (como em quase tudo nesta vida), mas o que se vê normalmente por aí é pura manipulação mesmo.

E então?

Minha conclusão chega a ser ridiculamente óbvia: que ninguém se deixe manipular por aqueles que se colocam na condição de representantes de Deus na face da Terra. Que o texto bíblico nos abra os olhos para o que Deus quer de nós: um coração com uma pureza de criança, mas sem infantilidade, própria dos débeis; uma sabedoria sem arrogância; uma prudência sem preconceito; um espírito de compreensão, mas sem condescendência; um amor responsável, que possua a dimensão da sinceridade e ação de correção e exortação quando necessário for. (Fonte: O Verbo)

Artigo de:
Fábio Bettes: Professor de Literatura Brasileira, autor de livros didáticos, compositor, membro da Igreja Evangélica Monte Hebron e músico da Banda Matizes. ( fbettes@terra.com.br )
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Comentários em: "Sobre a demoníaca arte de manipular" (1)

  1. Gostei muito, boas palavras.

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